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Disco com Criolo e Ney Matogrosso reverencia obra de Adoniran Barbosa

dezembro 8th 2016  ·   0 Comentários

“Se Assoprar, Posso Acender de Novo” foi composto por inéditas do sambista e trouxe vozes do novo cenário da música brasileira

O samba de Adoniran Barbosa marcou a história da música no Brasil. Não é à toa, portanto, que no final de novembro deste ano, a obra do cantor passou a ser considerada patrimônio cultural de São Paulo. Com um linguajar coloquial e familiarizado com o cotidiano das ruas, o sambista do interior do estado conquistou ouvintes no país inteiro com clássicos como Trem das Onze, Samba do Arnesto e Saudosa Maloca.

Kiko Zambianchi e sua filha são um dos artistas que interpretam as inéditas de Adoniran Barbosa

Kiko Zambianchi e sua filha são um dos artistas que interpretam as inéditas de Adoniran Barbosa

Foto: Divulgação

Além disso, o ano de 2016 foi mais um marco póstumo de Adorinan Barbosa. Depois de 34 anos de sua morte, Cassio Pardini, produtor de cinema e sócio da Latina Estudio, encontrou partituras inéditas nunca antes musicadas de Adoniran Barbosa. A partir daí o produtor musical Lucas Mayer deu vida aos escritos em um novo disco que traz nomes do cenário da música brasileira atual como Liniker, Criolo e artistas consagrados como Ney Matogrosso e Kiko Zambianchi para interpretar as canções. Intitulado como “Se assoprar, Posso acender de novo”, em referência à uma música do cantor, o álbum foi lançado este ano em meio às comemorações de 100 anos do samba.

O produtor Lucas Mayer comentou faixa a faixa as composições do novo disco. Confira:

1. O Rostinho de Maria (Adoniran Barbosa e Pepe Avila)

Fernanda Takai & Leo Cavalcanti

Samba leve com um arranjo de vocais dos dois intérpretes, que se intercalam com clarinetes e trombones. A Fernanda Takai optou por cantar com o Leo Cavalcanti, pois sempre tiveram vontade de fazer um som juntos. Contamos com a participação do Seu Cléusio, cavaquista do grupo Talismã, último conjunto que acompanhou o Adoniran Barbosa no final de sua carreira.

2. Ninguém Pode Negar (Adoniran Barbosa e Portinho)

Eduardo Pitta

O Eduardo Pitta é meu conterrâneo de Porto Alegre. Optei por convidá-lo por ele ser um expert em Samba e ter uma forma de interpretação única. Ele cantou com um microfone chamado Copperphone, que traz um timbre meio de rádio antigo. É um samba leve, com algumas frases de choro e com uma surpresa orquestral no meio, onde homenageamos Adoniran e sua forma de compor assoviando pelas ruas da capital.

3. Só Vivo de Noite (Adoniran Barbosa e Paulinho Nogueira)

Ana Julia e Kiko Zambianchi

A filha do Kiko Zambianchi, Ana Julia, sempre foi fanática pelo Adoniran Barbosa. Quando convidei ela e seu pai, lembrei dos clássicos de Adoniran com a Elis Regina. Acho que essa música é um pouco isso, apesar de ter arranjos vocais mais modernos e trabalhados, enxergo muito esses dois personagens em uma mesa de bar para algum programa da extinta TV Tupi.

4. O Sol e a Lua (Adoniran Barbosa e Zaé Júnior)

Diogo Poças

Seguindo a ideia da música anterior, originalmente convidei a Céu e o Diogo Poças para duetar nessa música. A Céu não pode por estar em turnê fora do Brasil, então joguei tudo no colo do Diogo, meu amigo de longa data. Ele matou no peito e disse: quero um samba canção! Então eis aí! Um arranjo apenas com Violão de 7 cordas (Gabriel Selvage) e Trombone (Diego Calderoni), que se desenvolve nos primeiros segundos com uma textura de rádio antigo até crescer lá pelos 40 segundos com uma frase linda do Calderoni. Posso dizer que gravando o Diogo Poças, logo após a conclusão do trombone, escutei claramente um Chet Baker abrasileirado cantando: Never More. É de arrepiar.

5. O Barzinho (Adoniran Barbosa e Renato Luiz)

Liniker

O Liniker disse que quando ouviu essa música pela primeira vez se identificou muito. Pois a paixão pela qual Adoniran Barbosa falava do Barzinho da TV Tupi, onde encontrava os amigos e artistas de televisão, e todo mundo se misturava numa boa, é a mesma paixão pela qual ele e seus amigos se referem aos bares da Praça Roosevelt. A voz dele pedia um soul e foi isso que fizemos. Nos metais temos Nahor Gomes e Ubaldo Versolato, do nipe de metais do Rei Roberto Carlos e ainda contamos com o Diego Calderoni novamente no trombone, somado às linhas de sax do Tato Cunha. Quem toca bateria é o Rapha Miranda, da banda rock Ego Kill Talent, na guitarra o Dilson Laguna (da banda do Simoninha) e no baixo acústico o Meno Del Picchia. Quer banda mais miscigenada que esta?

6. Naquele tempo (Adoniran Barbosa e Serafim Costa Almeida)

Versos que compomos na estrada

Versos que Compomos na Estrada é uma das bandas que considero mais bacanas dessa nova safra. Fiz um arranjo de trompas (instrumento razoavelmente inusitado, muito mais comum em orquestras do que em música popular), que somado ao violão, traz uma dramaticidade muito grande à poesia de Adoniran. Além de trompas temos o acordeom do Lulinha Alencar, costurando às vozes de Markus Thomas e Lívia Humaire.

7. Passou (Adoniran Barbosa e Pepe Avila)

Ney Motogrosso

O Ney diminuiu muito a velocidade do que seria a música. Contamos além do arranjo de violão de 7 cordas do Gabriel Selvage, mais uma vez com o Lulinha Alencar no acordeom. Bruno Serroni tocou violoncelo e o Nicolas Krassik violino. O Nicolas é um violinista francês casado com uma cantora brasileira, ele é um dos grandes expoentes da inclusão das cordas ao som brasileiro. Já tocou com grandes artistas como Gilberto Gil, Mestrinho, entre outros.

8. Até Amanhã (Adoniran Barbosa e Wilma Camargo)

Criolo

O Criolo não demorou para escolher essa canção, talvez por tratar-se de uma crítica social. O arranjo é o mais pesado do disco, apesar de cair para o samba nas partes cantadas por ele. Temos um coro de lavadeiras somado à alfaias e synths eletrônicos. Optamos gravar sua voz também com um Copperphone e, somando essa sonoridade à maneira que ele canta, conseguimos sentir um clima da São Paulo do século passado.

9. Procissão de Amor (Adoniran Barbosa e Maximino Parize)

Guri e Gero Camilo

Foi muito feliz a mistura das vozes do Guri (guitarrista do Otto) com a do ator, compositor e cantor Gero Camilo. Eles optaram por cantar um maracatu, com violões do Markus Thomas (Versos que Compomos na Estrada) e percussões do Kabe Pinheiro. Distribuímos microfones que iam desde o estúdio até a cozinha, passando por toda a casa durante a gravação, para simular uma procissão. No meio temos uma poesia do Pedro Gabriel, de “Eu me Chamo António”, um fenômeno da literatura de poesia, que também, como Adoniran, escreve suas poesias em guardanapos de papel. A poesia de Pedro foi declamada por Gero Camilo com um megafone, durante a procissão que criamos no meio da música.

10. Foi na Mosca (Adoniran Barbosa e Chico)

Simoninha e Fuzzy Sound System

Chamei para essa gravação a própria banda que acompanha o Simoninha. Queria realmente que ele se sentisse em casa. E foi isso que aconteceu, uma música com a cara dele e com a singeleza da poesia de Adoniran Barbosa. Também contamos aqui com o nipe de metais do Rei Roberto Carlos.

11. Receita de Pizza (Adoniran Barbosa e Jorge Costa)

Maurício Pereira

O Mattoli (Clube do Balanço) que me apresentou e convidou o Maurício Pereira (Os Mulheres Negras) para o projeto. Segundo o Mattoli, o Maurício é o Adoniran moderno! E ele é realmente genial. Cantou de primeira a canção sem errar! Foi o arranjo mais fácil e rápido a ser produzido. Como na letra Adoniran se refere a um ambiente de cantina, optamos por fazer a gravação por lá: com um microfone binaural gravamos 10 pessoas em uma cantina do bairro. Além disso, o Nicolas Krassik e o Lulinha Alencar, adicionam a canção melodias bastante clássicas de música italiana.

12. Encalacrado (Adoniran Barbosa)

Marco Mattoli e Fabiana Cozza

Essa faixa seguimos o tema de casa e seguimos algumas regras clássicas do samba, tanto em arranjo (onde os músicos gravaram todos juntos), como em formato de refrãos e repetições de estrofes. A ideia é esta música ser “o samba” do álbum. Fabiana Cozza tem uma carreira muito forte nesse ramo musical e o Mattoli (Clube do Balanço) foi o expert que trouxe essência à canção.

13. O Mundo Vai Mal (Adoniran Barbosa e Antonio Rago)

Estevão Queiroga e Yassir Chediak

O Estevão Queiroga é um dos maiores cantores da Sony Gospel. Misturei ele com o Yassir Chediak, violeiro respeitado e apresentador do programa de TV “Brasil Caminhoneiro”. Somando o Mandolin do Wonder Bettin, da banda Naked Girls and Aeroplanes, a Sanfona do Lulinha Alencar e os pífanos do Tato Cunha, temos uma música de uma profundidade absurda.

14. Messias (Adoniran Barbosa e Copinha)

Lulinha Alencar, Gabriel Selvage e Nicolas Krassik

É uma música instrumental! Sim, Adoniran Barbosa compôs (com certeza assoviando) uma música instrumental com seu amigo Copinha em mil novecentos e sessenta e poucos. E não era um samba. E sim, uma valsa. Eis que unindo Lulinha Alencar, Nicolas Krassik e Gabriel Selvage, temos um gipsy jazz manuche totalmente gravado ao vivo!

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